É preciso apresentá-lo logo. Chama-se Bento e ocupa lugar de destaque em meu cotidiano. Quem tem ou já teve um cachorro conhece boa parte da historia: olhos curiosos e acesos, efusão ao retorno da mais ligeira ausência, eloquência no rabo, sensibilidade à flor do pelo e um companheirismo que desconhece limites. Bento tem tudo isso e lá as suas individualidades. Ele adora pessoas e, nestas, algumas partes em especial. Dedos, por exemplo. Principalmente dos pés. Bento adora mordiscar uns artelhos e não lhe importa se são os velhos de casa ou os da nova conhecida de sandália rasteira, as pernas cruzadas na cadeira ao lado. Sem machucar, isso não. Nada em seu redor o convoca à agressividade. Tampouco à desconfiança. Imagina-se indubitavelmente aceito e não se faz de rogado: usufrui sem constrangimento o que imagina ser seu. Essa característica - algumas saias justas à parte - me agrada imenso. Bento se sente aceito. E querido. Dia destes sussurrou em meu ouvido, já quase pegando no sono, os olhos fechados: 'eu amo todo o mundo'. Estreitei-o nos braços para confirmar a reciprocidade. Não o quero mesmo violento, menos ainda cão de guarda, segurança pessoal. Bento gosta de fazer contato, não de evitá-lo. E se o mundo conclama à desconfiança, não fomos nós que o inventamos. Bento não tem pés atrás, mas um selvagem coração à frente.
Saímos logo cedo para a caminhada. A chuva de ontem trouxe o caos à cidade mas, esta manhã, havia apenas gotas transparentes sobre as ramagens. Eis um prazer absoluto: deslizar o corpo pela folhagem, roçar o verde molhado. Uma delicadeza de elefante entre porcelanas. Talvez sinta aí o chamamento à suas raízes de caçador nos pântanos estrangeiros. Ele passeia ali a plumagem, me olha extasiado, o focinho úmido, e segue farejando à cata dos recados. E vai deixando os seus, ora se vai (há dias, inclusive, em que parece ter muito o que informar à sua galera). Aqui e ali, quando a felicidade não lhe cabe no corpo robusto, ele dá uns pinotes em minha direção e eu juro que o vejo sorrir.
Bento tem este nome porque sobreviveu a uma tempestade que dizimou quase todos os seus irmãos, ainda filhotes. Na chácara em Bragança Paulista, onde nasceu. Alvísseras, Bento! Na época pensei em chamá-lo Moisés, aquele das águas, mas fomos às urnas, outros nomes sugeridos. Este venceu. Um tempo passou.
Dois anos depois é que consigo compreender quem foi efetivamente abençoado.
6 comentários:
San, fico sempre surpreso com tua inesgotável capacidade de gerar poesia. Muito bacana.
Meu herói!!!
Meu herói!!!
Bonito!!! Juro que até navegar no seu Blog, não sabia a utilidade e o prazer que poderíamos tirar dessa ferramenta, mas agora, com calma e zelo, vejo que pode-se expor a alma e soltá-la ao vento, deixando rastros para que se nos conheçam melhor. Gostei deveras (para imitar seu Pessoa), vou frequentá-lo sempre. Quanto ao dois quartos, você sempre estará em todos os cômodos da casa fazendo o que precisa ser feito e bem. Bjos.
Quem foi q disse mesmo: 'vá o homem aonde for só encontrará a beleza q levar consigo'?!
Santana, coincidentemente temos tambem um Bento, muito parecido nos jeitos com o teu, mas da raca Bernese.Te mando uma foto depois.
Fraternal Abraco.
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