quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

RETRÔ2009/SUR PARIS


Tirando eu, você, e mais uns dois ou três desavisados, TODO O MUNDO bateu uma perna pelo Blvd Saint Germain, em Paris, no início do século passado. Só assim, num pequeno exercício de memória: Sartre e Simone, Scott e Zelda Fitzgerald, Albert Camus, Gertrude Stein, Joyce, Proust, Miró, Chanel, Ernest Hemingway. Até Freud e Pessoa, mais introspectivos do que esta turma animada, devem ter dado seus pulinhos por ali, afinal eram todos contemporâneos e ninguém passou pelos anos loucos sem deixar pelo menos uma digital em algum café da Cidade Luz àquela altura. (A bem da verdade, Hemingway não serve de referência neste caso porque não há boteco neste vasto mundo que não se vanglorie de ter servido uma ou várias doses a este americano desassossegado).
É mole? Não deve ter sido. Quem viu, viu, quem não viu que tente refazer os passos desta gente que teve o privilégio de desembarcar por aqui na mesma época e de desfrutar a egrégora de uma cidade realmente especial.

Este ano li dois livros referentes a Paris: Biografia de Uma Cidade, de Colin Jones, e Os Franceses, do brasileiro Ricardo Corrêa Coelho.
O primeiro faz jus ao título e traz a história da cidade desde seus primórdios, oferecendo, inclusive, a primeira descrição conhecida a seu respeito. Trata-se de uma carta do imperador romano Juliano sobre suas estadias na cidade em 358 e depois no inverno de 360-361:
'É a capital do povo dos parísios. É uma pequena ilha que repousa no rio; uma muralha a circunda completamente, e pontes de madeira dos dois lados nos conduzem a ela. O nível do rio raramente sobe ou desce; em geral é tão profundo no inverno como no verão; sua água é límpida para olhar e agradável para beber. Pois os residentes, por morarem numa ilha, precisam obter sua água principalmente do rio...'
O autor ainda alude a um comentário muito interessante do barão de Pöllnitz em - veja bem - 1.732: 'Paris já foi tão descrita, e tanto já se ouviu falar dela, que a maioria das pessoas sabe como ela é sem nunca a ter visto'. E o ótimo: 'Nunca vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo'. São 560 páginas de muita informação.

O segundo, Os Franceses, é de leitura deliciosa e mais coloquial, abordando desde a sua formação, ao cotidiano e comportamento social dos franceses, ênfase nos parisienses, na parte mais agradável da leitura. Lá pelas tantas o autor revela um dos hábitos mais comentados (e mal interpretados) dos parisienses, sua relação com a higiene pessoal. Veja o que ele diz:
'Como o banho é para os franceses uma coisa muito especial, ele não pode ser diário. Afinal, encher uma banheira e mergulhar o corpo nela demanda tempo e dedicação, o que não pode ser feito todos os dias. O que os franceses fazem diariamente é a sua 'toilette', aquilo que os brasileiros chamariam de 'banho de gato'. Alguns tomam uma ducha mas essa não é a regra. Todos os dias, religiosamente, o francês típico faz a sua toilette matinal. Enche a pia de água quente e, com uma luva atoalhada, umedecida e ensaboada, higieniza o seu corpo de cima abaixo. Essas luvas, que em francês se chamam gants de toilette, são tão comuns e necessárias à higiene pessoal dos franceses quanto o sabonete e o papel higiênico. Por isso, quando se é hospedado na casa de um francês, recebe-se sempre junto com a toalha um gant de toilette. Oferecer a um hóspede uma toalha sem um gant de toilette seria uma descortesia e desatenção tão grandes quanto lhe dar um par de lençóis sem fronha'.

O livro é cheio destas informações urgentes e banais. E é sempre muito interessante nos depararmos com as diferenças entre os povos, concorda?! Não a toa se diz que viajar, em termos de desenvolvimento pessoal, é um dos maiores investimentos que podemos nos oferecer.

Falando aqui, de Paris e destas leituras, ficou impossível não citar o próprio Hemimgway em carta a um amigo, 1950: "Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel".

Au Revoir - ou, antes - À Bientôt!

4 comentários:

luis disse...

No q então vc revelou o segredo do "banho francês"??!! muito bom.
Vi a entrevista do autor do livro no Jô e me interessei na ocasião. Depois esqueci. Agora reacendeu.
Quem sabe rola uma Paris em 2010, não é mesmo?
Abcs

Dom disse...

Legal, tanta gente interessante citada e tantas considerações a se exprimir a respeito delas e o que mais nos chama a a tenção é o operacional "du Bain" francês.
Seria legal desenvolver o tema global, (Sur Paris), com informações sobre a influência da cidade na conduta desses icones atemporais, mas..., à mim, não foi dado engenho ou arte para tal. No máximo poderiamos nos ater na importância do "parfum", (lá nacional), na composição desse ritual diário francês.

maria helena disse...

Achei bem interessante. Como vc, amo Paris, e os mitos, lendas e histórias da cidade me interessam sempre.
Aliás, embora Paris seja 'la lumière', a França em si é um país lindo e muito atraente.

Anônimo disse...

Informações urgentes e banais...adorei isso!!!