Este ano li alguns livros interessantes e conheci uma escritora francesa da qual ainda não ouvira falar: Muriel Barbery. Li os seus dois livros publicados no Brasil: A Morte do Gourmet e A Elegância do Ouriço. Ambos se passam no mesmo edifício de luxo, em Paris, na Rue de Grenelle 7. O segundo é especialmente agradável e consistente. Narra a visão de mundo de duas moradoras do prédio: Paloma, talvez a única criança 'precoce' que não torra a paciência do interlocutor, e Renée, a concierge intelectualmente sofisticada e de requintes inimagináveis para a vizinhança burguesa.
Reflexões de Renée - sobre o ato de escrever:
'Quando as linhas se tornam seus próprios demiurgos, quando assisto, qual um milagroso ato inconsciente, ao nascimento no papel de frases que escapam à minha vontade e que, inscrevendo-se na folha apesar de mim, ensinam-me o que eu não sabia nem acreditava saber, gozo desse parto sem dor, dessa evidência não concertada, que consiste em seguir sem esforço nem certeza, com a felicidade dos espantos sinceros, uma pluma que me guia e me transporta.
Então, tenho acesso, na plena evidência e textura de mim mesma, a um esquecimento de mim que confina com o êxtase, e sinto a bem-aventurada quietude de uma consciência espectadora.'
Reflexões de Paloma:
'Aí vai, portanto, meu pensamento profundo do dia: é a primeira vez que encontro alguém que procura as pessoas e que vê além. Isso pode parecer trivial, mas acho, mesmo assim, que é profundo. Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes. Se nos déssemos conta, se tomássemos consciência do fato de que sempre olhamos apenas para nós mesmos no outro, que estamos sozinhos no deserto, enlouqueceríamos. Quando minha mãe oferece petitsfours da casa Ladurée à sra de Broglie, conta a si mesma a história de sua vida e apenas mordisca seu próprio sabor; quando papai toma café e lê o jornal, contempla-se num espelho do gênero manual de autoconvencimento e, quando as pessoas passam diante da concierge, só vêem o vazio porque ali não se reconhecem.
De meu lado, suplico ao destino que me conceda a chance de ver além de mim mesma e encontrar alguém'.
E ainda Renée:
'A liberdade, a decisão, a vontade, tudo isso são quimeras. Acreditamos que podemos fazer mel sem partilhar o destino das abelhas; mas nós também não somos mais que pobres abelhas fadadas a cumprir sua tarefa e depois morrer'.
Espero, sinceramente, que Muriel Barbery não me prive demasiado de sua prosa. E que esteja de volta em 2010.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
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2 comentários:
Que bom que vc gosta dos escritos e do estilo da Muriel Barbery, que pensando bem tem a ver com o seu próprio;
algumas questões que não querem se calar:
-O que acontecerá no aniversário de 13 anos de Paloma?
-Consiguirá Kakuro salva-la da mediocridade?
-O final será suicídio seguido de um grande incêndio?
Aguardo resposta por esse canal ou por e-mail.
Gostei imensamente do Elegância do Ouriço. As personagens são vibrantes e o texto é riquíssimo.
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