Na saída do show de Maria Bethânia, quinta-feira passada, minha mãe comentou: 'a impressão que dá é que nada está ali por acaso...'
Bingo! Talvez seja este um fio do multifacetado tecido que compõe esta personalidade. A despeito do repertório mais ou menos inspirado, da iluminação providencial ou dispensável, da direção segura ou claudicante, o que se vai fazer em um ambiente onde Maria Bethânia se apresenta, é vê-la. Observá-la, degustá-la, estar com ela. Testemunhar seu eloquente desempenho. Na vida.
A fresta por onde a perscrutamos é o palco. Ali estão suas verdades, suas crenças, inquietações, idelogias, seus temperos. Seu universo. Sim, esta artista é muito mais que uma grande cantora. Ela é um universo. Povoado por interiores, Clarice, Fernando, Sophya, Chico, Caetano, Canô, Santo Amaro, Brasil, Bahia, tecidos, santos, festas, rituais, incensos, cheiros, sabores, poesia. Muita poesia porque o irmão vaticinou lá atrás: 'ou feia ou bonita ninguém acredita na vida real' - mas, então, o paradoxo: algo mais real que a poesia?!
Vamos presenciar Bethânia existir, com nossa roupa mais confortável, bem passada e limpa. Nada de ostentação, porque Maria é substantivo. Os adjetivos deixamos na soleira do teatro. Ou na chapelaria, com as capas, os sobretudos e todos os invólucros. Vamos conferir a sua fruição de braços dados, todos. E nos amalgamos entre nós e nela. Gentes de todas as cores, sexos, idades, conduzidos por sua voz ora doce, ora selvagem, ora conclamando à alegria, outras convocando à luta. Dona absoluta de seu leme, é às profundezas mais soturnas que ela nos conduz, e àquelas alturas que nos eriçam pelos e revigoram a alma. É à criança que abafamos aqui dentro que Maria desperta. Por isso saimos descontraídos, loquazes, afetuosos, prontos para o abraço.
Os céticos atribuem esta magia à uma pretensa entidade que a artista receberia em cena. Apenas os céticos, que desconhecem a lida, o plantio e o trabalho diário. O olhar flutuante, a alma que queima, o espírito que se quer livre. E as mãos que manuseiam temperos para o alimento.
Cada dia mais limpa e concisa, Maria Bethânia permanece nobre. E ao mesmo tempo mais próxima de suas nascentes. Das cirandas, das violas, da chuva fina, do luarão no terreiro.
Toda ela lua, esta brasileira é a digna representante da nobreza popular.
A foto é de Miriam Jerônimo.
6 comentários:
Vislumbrei o universo de Maria Bethânia através de vc. Uma jornada. Habita todas as terras, reside em todas as regiões. Em todo o semblante procura a beleza do amigo, alcançando a entrada no vale do amor, onde é consumida por seu fogo, diante de todos. Aí, ressurge, ergue-se o céu de êxtase e brilha o sol q ilumina o mundo.
Obrigada por ter trazido Bethânia à minha vida.
Nossa, Santana, vc foi muito feliz em sua tradução deste terreiro.
Antes de ser a grande artista que todos nós aplaudimos e louvamos, Bethânia é uma cidadã de primeira qualidade.
Bravos!
A Bethania é a grande tradutora da alma brasileira. Sua energia é realmente contagiante e tudo o q diz e canta é impregnado de verdade e fé.
Incrível como a Bethânia acredita nela mesma. Isso tb faz a diferença.
Abç.
San, sem palavras...
Lamento tanto ter perdido este show. Lendo o texto lmentei ainda mais.
MB é sublime.
Suas observações precisas estiveram a altura da Bethânia, sem dúvida uma das artistas mais especiais em atividade no país.
Pretendo assisti-la em março quando voltar a SP.
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