quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

DELICADAMENTE

Penso nos subterfugios da 'sensibilidade'. A quantas manifestações de egocentrismo e tirania tenho assistido, frequentemente maestradas por corações excessivamente delicados e sensíveis. Quanto sentimento de culpa disseminado em sua cidadela para que dele brotem as atitudes que manterão no trono os seus artífices. Em nome de um coração excessivamente delicado, arregimenta-se um exército de servilidade e toda a sorte de aparatos para que não se coloque em risco a integridade deste cristal - mesmo que para isto sejam ceifadas quaisquer manifestações de vida e individualidade que insistam em se manifestar em paralelo ao trono. A 'sensibilidade', para começar, é extremamente míope; pouco enxerga adiante de si.

Vejo pais extremados e zelosos mantendo em cabresto curto os beneficiários de seu amor abrasivo, impedindo com labios doces que ali se manifeste uma identidade; avós justificando com cabelos brancos conceitos indefensáveis para quem projetasse o olhar além de seu próprio umbigo. Namorados impedindo com um biquinho inocente que o outro se perceba uno. Carneiros pastando solenes.

Oscar Wilde escreveu em seu feérico Di Profundis:
'Um sentimental é aquele que simplesmente quer desfrutar do luxo de uma emoção sem ter de pagar por ele. O sentimentalismo é a colônia de ferias do cinismo'.

A tirania da sensibilidade anda de braços com o poder da vítima, do mais fraco. O poder da vítima, por sua vez, há séculos faz o mundo girar, mesmo que em circunferências diáfanas de bolhas de sabão.

Se você tem o que fazer, se respeita seus sonhos e procura seu próprio modo de viver, prepare-se para enfrentar os apelos por vezes velados - mas ensurdecedores - dos frágeis e sensíveis. Eles frequentemente se apresentam com a túnica multicolorida da amorosidade. E transmutam sua incorrigível dependência no que chamam, saboreando, de excessos. De zelo, de preocupação, de amor - desgastada palavra. Seus sentimentos se sobrepõem ao de todos. Falam em nome da solidariedade, da generosidade perdida, dos velhos tempos, entretanto sequer o escutam e, quando o fazem, é apenas pelo tempo suficiente para impedi-lo de perceber que não é ouvido.

Eles estão por toda parte. Às vezes brindando com o seu próprio vinho a estas invisíveis correntes.

Um abraço.

5 comentários:

lu colette disse...

Muito bom. As arbitrariedades cometidas em "nome do amor" mereceriam um comentário à parte.
Abçs

Anônimo disse...

q bom q vc abordou 'delicadamente' este tema para o qual é necessário estar sempre atento.
esta sacação precisa de aprendizado e experiência.

maria disse...

As entrelinhas, os subtextos, por vezes contêm ferro em brasa.

maria

Silvia disse...

Uau!!! Arrasou! Parafraseando um dito popular, "Deus me livre dos sensíveis, que dos insensíveis me livro eu".

Anônimo disse...

Tinha lido isso aqui uns dias atrás, cheguei da rua há pouco onde presenciei coisa semelhante, vim dar meu comentário. Concordo com Silvia. As vezes eh difícil se defender desta gente tão "delicada".
Saia correndo, se puder.