terça-feira, 22 de dezembro de 2009

DE BELÉM DO PARÁ


Belém é uma cidade morena. E sua. Transpira. Cheia de cheiros, Belém. Patchuli, tucupi, Phebo, maniva, pimenta. Belém não é verde como muita gente pensa, embora no centro da cidade as mangueiras formem tuneis verdes de onde deixam escapulir as mangas sobre os carros, só por diversão. Quando morei aqui colhia manga pela janela do meu quarto com um coador de café enrolado no cabo de uma vassoura. A gente pobre catava as mangas e as comia com farinha, devido a fome. A gente rica fazia o mesmo, por puro gosto. Hoje não sei mais como é. A única manga que vi despencar nestes dias caiu exatamente sobre o carro de minha irmã e não vi que destino teve.

Morei aqui por oito anos, no começo de minha juventude. No Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré travei conhecimento com uma formalidade que desconhecia no interior do Maranhão, de onde vim. Aprendi a levantar cedo e a zelar pelo uniforme. Plantei uma mangueira. Em minhas manhãs aspirava um cheiro de pinho.
Foi aqui que cursei a Faculdade de Medicina até o quinto ano, pois o Internato fiz na Beneficência Portuguesa de São Paulo e de São Paulo nunca mais saí, tamanha a paixão.
No Teatro da Paz, ainda hoje orgulho dos paraenses, assisti aos meus primeiros espetáculos e conferi praticamente todas as apresentações do Projeto Pixinguinha, acompanhado de meu pai que trabalhava na mesma Praça da República que abriga o Teatro. Eu o esperava guardando lugar na enorme fila de jovens que se fazia à porta. Por ali passaram, no nascedouro, Simone, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zezé Mota. E pude ver de perto artistas consagrados como Regina Duarte, Tarcisio e Glória Meneses, Elis Regina, Gal Costa. Só nunca pude tomar um refrigerante no Bar do Parque, contíguo, porque aquele ambiente 'marginal' não depunha a favor de quem trilhava a free way e desconhecia estradas vicinais. Muitos anos depois, sentei ali com uns amigos, de férias na cidade, mas aí já havia passado tempo demais. O Bar do Parque era apenas mais um lugar aprazível para se tomar uma cerveja e refrescar o calor.

Do Círio de Nazaré é impossível esquecer. Poucos espetáculos são tão emocionantes. Faz pouco tempo que o resto do Brasil se deu conta do que acontece em Belém no segundo domingo de outubro. Milhares de pessoas (hoje contam 2 milhões) saem às ruas para louvar a Virgem de Nazaré, padroeira da cidade. É uma festa religiosa e pagã, até pela dificuldade em articular tamanha multidão em torno de uma homilia mais formal. Trata-se, então, de um congraçamento dos paraenses entre si e de quantos afluírem para sua cidade nesta data. Para se envolver neste encantamento não é necessário ter alguma fé ou processar qualquer religião. A sinergia entre as pessoas é o verdadeiro milagre.
Nesta altura há um 'paticídio' em toda a região, porque da mesa mais simples à mais sofisticada, o pato no tucupi reina soberano, e o cheiro da mandioca prensada, do jambu, das pimentas envolve a cidade em uma atmosfera idílica. O Círio de Nazaré é uma festa visceral, sensual, um verdadeiro brinde aos sentidos. Preciso ver isso de novo.

Fiquei ausente de Belém por muitos anos, desde que meus pais voltaram para o Maranhão, que passou a ser novamente meu quartel general familiar, para onde ia pelo menos uma vez ao ano; ou muito mais. Um tempo passou. Com o avançar da idade, eles precisaram voltar para a cidade grande e, há três anos, voltei a frequentar o Pará. Ainda estou tomando chegada. Agora tenho olhos de turista - e sou tratado como tal. As pessoas, gentilmente, querem me mostrar as belezas e apontar o progresso. Querem que eu não sinta tanto calor e que não me falte verdura à mesa, já que agora me alimento como um paulistano. Insinuam um açaí com peixe frito no Ver-O-Peso, mas temem pela minha digestão. Me perguntam se está quente demais para encarar uma maniçoba, mas se esbaldam com a minha dificuldade em debulhar o caranguejo toc-toc. E se regozijam quando saio sozinho, final da tarde, e vou à calçada de meu antigo colégio tomar meu tacacá. Ser olhado assim é rejuvenescedor.

É extremamente zeloso este povo que é um pouco meu. Tenho duas sobrinhas que nasceram aqui, meu irmão casou com uma paraense há vinte e muitos anos.

O tempo divide, não há dúvida, mas algumas coisas serão para sempre: um som, um aroma, um paladar. Uma madrugada em que, chegado da rua, feliz, com meu irmão e alguns primos, sentados no chão do terraço do apartamento, olhei as mangueiras enfileiradas à frente e temi perdê-las de vista. Por descobrir, naquele momento, que era isso que deveria ser feito.


Muitos anos depois, escrevi em minha coletânea "O Rio Que Corre Estrelas":

'No momento da partida, quando se romperam laços, ajuntei pedras.
E as depoitei uma a uma no alforge que atei à cintura.
Pela vida afora e em momentos diversos, com uma mão precisa, depositei-as no chão.
Para aliviar o fardo e demarcar a rota.
Uma a uma, por delicadeza.
Em distintos sítios para que, no retorno, a trilha não me conduzisse em linha reta a um único lugar.
Quando acontece de nos encontrarmos pelo caminho,
aliso cada uma com a mão calejada, retiro dela o limo e, rapidamente, a arremesso para longe, longe, no limite de mihas forças.
Alinho-me e, em movimento, aguardo, sem me preocupar com isso, nosso próximo encontro'.

Um abraço.

11 comentários:

Dom disse...

Lindo... Seu relato nos faz sentir íntimos do conhecimento sem nunca termos ido.
Mas fé e esperança pq viajar é preciso e viver mais ainda.
Arrependimento é de não termos entrado no quarto escuro quando as possibilidades nos pertenciam, por medo de que a luz não pudesse nos revelar a poética que reside em suas citações.
Afetos mil

maria helena disse...

Ihhh, acho que o espírito de Natal baixou por aqui em mim.
Fiquei emocionadíssima!!!!
Lindo!

Feliz Natal para todos vcs!!!!

luis disse...

Minha mulher estava em Belem e participou do Cirio, alguns anos atrás. Ficou muito impressionada com a festa. Dizem que pros paraenses o Cirio é mais importante q o próprio natal.
Tenho vontade de viajar de barco pela Amazônia, partindo de Belem. Deve ser um troço muito especial.
A gente aqui no sul se esquece que a amazônia (ainda.....) é nossa.

Marcio F. disse...

Amigo Santana...deu ate pra sentir os aromas deste lugar. Tenho um amigo urologista que se casou com uma pediatra dai, e diz adorar o lugar.
Sua capacidade de escrita deveria fazer voce virar escritor cara...como aquele medico escritor que agora escritor medico, entretem tantas pessoas a partir de seu universo Arabe.
Feliz natal para voce e todos os seus queridos,
Abraco,

silvia disse...

Bravos!
Marcio F tem toda razão. É necessário honrar os talentos.
Gosto muito de suas abordagens.
Aproveite bem esta temporada junto aos seus que isso vale muito.
Um belo final de ano para vc e para todos.
beijos

Unknown disse...

San,
NY, 4:00am. -5 graus la fora. adora NY no inverno. no entanto, lendo tua descricao de Belem, deu uma saudade imensa dai, de estar com voces. Fechando os olhos, da pra sentir o calor antes da chuva..a musica das folhas das mangueiras ao vento, o cheiro de tacaca e o gosto de sorvete de cupuacu na boca...aproveite muito.
BOAS FESTAS
para todos da familia Santana.

dani disse...

BONITO DEMAIS.
DEIXAR FALAR O CORAÇÃO TALVEZ SEJA A MANEIRA MAIS TRANSCENDENTAL DE COMUNICAÇÃO.

Anônimo disse...

Realmente, a poesia talvez seja a única forma que nos sobrou para perscrutar a beleza...bem aventurados os olhos que vêem...

terê disse...

Não conheço Belem mas amei sua crônica. Já comi pato no tucupi e gostei muito. A maniçoba nem por fotografia...urgh!

santana filho disse...

Pessoal, obrigado pelos comentários.

Marcio F, quem é o médico ao qual vc se refere?

Abraços

Anônimo disse...

Arrepiei!!!