Este ano não fui ao cinema. Aos filmes destacados aqui assisti em DVD.
Por influência de minha amiga Graciela, resolvi botar mais reparo na obra de Woody Allen. O cineasta nunca me chamou a atenção, a despeito de sua irreverência e criatividade, qualidades que aprecio sempre. Comecei assistindo novamente Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, a cara dos 70. Passei por O Sonho De Cassandra, Tiros na Broadway, Zelig, Igual A Tudo Na Vida, Vicky/Cristina/Barcelona. Gostei especialmente dos dois últimos. Não me tornei allendiano mas me diverti com seus filmes.
Já que estava reinaugurando a era dos festivais domésticos, resolvi rever um dos meus artistas preferidos, Ingmar Bergman. Assisti, de enfiada, Gritos e Sussurros, Persona, Sonata de Outono, Cenas de Um Casamento e Morangos Silvestres. Em Sonata de Outono está uma das frases mais impactantes da literatura Bergman. No auge do confronto entre mãe e filha naquela noite de cartas na mesa, esta última se dirige à primeira: 'Será a infelicidade da filha o prazer secreto da mãe?'
Nunca havia assistido Morangos Silvestres. Gostei tanto que pensei em comprar o DVD. O protagonista, Sr Isac Borg, é cativante. O ator que o interpreta, Victor Sjostrom, primoroso.
Em abril assisti a um filme nacional que me agradou imenso: Estômago. Um filme original, com interpretação impressionante do João Miguel. Sem dúvida, Divã é um filme agradável, e Linha de Passe, apesar de escuro na fotografia e na alma, merece ser visto.
Surpresa agradável foi O Segredo Do Grão. Poucas vezes vi uma narrativa de cinema tão coloquial. As personagens têm vida e, em pouco tempo, estamos todos embaralhados naquele universo.
Medos Privados Em Lugares Públicos é outro francês muito interessante. Entre Os Muros Da Escola me prendeu do começo ao fim, provocando sentimentos diversos. Os atores são amadores, o que soa incrível diante da qualidade de suas interpretações. Ao final do filme somos amigos do professor desde a primeira infância, tal seu coloquialismo e empatia.
O Amor Nos Tempos Do Cólera é o que se chama um filme bonito. Não tanto quanto Morte Em Veneza (Luchino Visconti), que revi depois de reler o livro de Thomas Mann em um domingo chuvoso. Se eu tivesse um telão na parede de casa, deixaria este filme passando ininterruptamente, sem som, para, vez em quando, ao dar por ele, ser novamente abalroado por toda a beleza.
O Estranho Caso De Benjamin Button poderia ser mais curto. Quem Quer Ser Um Milionário me agradou mais pela ideia do que pela realização. Dúvida e O Leitor são bons filmes, especialmente este último. Capote é eloquente, mas o mais impressionante ali é mesmo a interpretação do Phillip Hoffman. E Irina Palm é desconcertante. Grande Irina!
A Vida Secreta Das Palavras é um filme árido e de uma beleza que se dói antes de se manifestar.
Na televisão duas coisas me surpreenderam: a minissérie Som e Fúria e uma entrevista do Pedro Cardoso para o Sem Censura da TVE. A minissérie teve tudo o que se espera de um bom programa: texto, ritmo, direção, e uma interpretação arrojada de todo o elenco (Felipe Camargo, quem diria...). A entrevista de Pedro Cardoso me impressionou pela inteligência, coragem e articulação com que defendeu ideias a respeito de sua profissão e de cidadania.
Assisti a bom teatro. Vou destacar Zoológico De Vidro (T. Willians) em uma montagem exemplar, Centenárias (Newton Moreno) com Marieta Severo e Andrea Beltrão dando carta e jogando de mão, se diria em minha terra. A Alma Boa De Setsuan (Brecht), com uma Denise Fraga quase sempre agradável. Ainda teve Marília Pera leve e divertida na pele de Florence Jenkin, a patética 'pior cantora do mundo'. Um digestivo, digamos assim...
Não dá para esquecer Turismo Eterno, belo espetáculo português com o texto magistral de Fernando Pessoa. O diretor Ricardo Pais promove um encontro entre os heterônimos de Pessoa tecendo um enredo elegante e viril.
A Alma Imoral é uma adaptação do livro homônimo de Nilton Bonder, feita com extrema sensibilidade por Clarice Niskier. Incrível como ela se apossa inteiramente do pensamento do autor, tornando o espetáculo absoluto e autoral.
Shows, fui a poucos, mas participei de um 'movimento': Roberto Carlos no Ginásio do Ibirapuera. Quem já assistiu a um concerto do Rei sabe a que me refiro. O espetáculo começa nos arredores do ginásio. Os asseclas vêm de toda a parte e de todas as maneiras. De limusine à cadeira de rodas, todos chegam lá. E já chegam em ponto de bala, doidos para se relacionar. Nas arquibancadas é necessário pouco tempo para que estejam instaurados os laços de sangue. A família Roberto o aguarda ansiosa. Quando ele chega, o frenesi é geral. Não há nada de novo ali. Trata-se de um reencontro, um reconhecimento. São todos íntimos. Você viu, você esteve lá. Ao desfiar seu repertório, fica claro que há pelo menos uns três ou quatro robertos na trilha sonora de sua vida. E quando ele sai, do lado de cá do pano a família ainda celebra o encontro, feliz, cantando a plenos pulmões aqueles mantras. Canções que jamais foram compostas, que desconhecem autores e datas, pois sempre estiveram ali naqueles corações e mentes.
Para encerrar o ano (pouco) musical, nada mais apropriado do que Maria Bethânia em seu novo show Amor, Festa, Devoção. Uma beleza! Mas sobre ele escrevi há pouco em outro post por aqui mesmo. Continua valendo.
Termino citando a frase final de Zoológico De Vidro, dita pelo filho, Tom, alterego do próprio Tennesse Williams: 'Laura, apaga a vela, que o mundo agora será iluminado por relâmpagos...'
Abraços.
A foto é de Miriam Jerônimo. Parte do cenário do primeiro ato de Amor, Festa, Devoção. São Paulo, 10/12/09
5 comentários:
É pra se pensar: quê q eu andei fazendo em 2009??? de tudo que li aí só assisti A Incrível historia de benjamim...(gostei médio) e Estômago (o cara é realmente genial).
Ah sim, Quem quer ser um milionario, também, mas achei meio chato. Neste ano teve India demais no Brasil, pro meu gosto.
Em 2010 preciso voltar com tudo ao cinema, teatro, etc...eu, hein?
O conjunto RETRÔ, magistralmente descrito, é a receita com a qual o San nos revela sua evolução anímica, cada vez mais aperfeiçoada e de onde tira subsídios para cativar a todos com sensibilidade e inteligência. Consegue ser tão claro de suas participações vivenciadas ao longo do ano, que de algumas delas cheguei a participar,(apesar de pouco nesse ano atípico),mas ainda assim nos credenciou a dar testemunho da intensidade com que esses fatores calaram fundo na alma de quem posso considerar como referência.
E o melhor disso é que por destino ou vocação, consegue provocar em nós um movimento contagiante em direção ao melhor da nossa vontade em obter aperfeiçoamento semelhante.
Parabéns pela vivência e continue a nos brindar com sua régua e compasso, pois elas sempre hão de nos interessar muito.
Acho que Alma Imoral foi a grande surpresa do ano em termos de teatro. Assisti duas vezes.
Assisti a varios dos filmes mencionados e gostei muito de Atrás dos Muros da Escola. Um jeito descontraído de fazer bom cinema.
Os documentarios Waldick e Simonal tb foram muito bons. Diria que na telona, a produção cinematográfica brasileira esteve melhor nos documentários.
Assusti uma sessão especial de É Proibido Fumar e adorei. Além da historia ser ótima, Gloria Pires está gloriosa.
Vc esqueceu da minissérie Maysa, ou não gostou tanto?! achei uma delícia...e ainda nos deu este Mateus maravilhoso.
Alguns filmes que vc citou eu adoro, tipo Morte em Veneza, V,C,Barcelona e O Leitor.
Na TV o GNT manteve o nível com os mesmos Saia Justa, MG entrevista e Irritando FY. Mulheres Possíveis tb esteve 10.
a Globo mandou bem com Som e Furia e principalmente Maysa. As novelas foram todas um saco. E Mateus Solano veio pra ficar.
Julie & Julia foi o filme mais divertido de 2009 e MS deu mais um show.
O CD TUA da MB foi o melhor não apenas do ano mas dos últimos anos na discografia da baiana.
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