domingo, 20 de dezembro de 2009

RETRÔ2009/LIVROS


Literariamente, para mim, 2009 foi o ano da descoberta de Marcel Proust e sua A Procura Do Tempo Perdido. Ainda estou no terceiro volume da série, O Caminho de Guermantes, (são sete), e esta degustação é um capítulo à parte no prazer que é ter um bom livro nas mãos. Como não o leio initerruptamente, estou sempre intercalando esta leitura com algum outro livro. Assim, cheguei ao segundo autor que mais me impressionou nos últimos tempos: Albert Camus. Claro que já o conhecia (de vista), já havia lido O Estrangeiro, anos atrás, mas só este ano sua palavra foi realmente impactante. Reli O Estrangeiro e descobri A Queda, provavelmente o texto mais eloquente a que tive acesso nos últimos tempos. Li duas vezes, em dois fôlegos. Tivesse eu talento para isso, o adaptaria para um monólogo e o levaria ao palco. Mika Lins fez o mesmo com Memórias do Subsolo, de Dostoievski (na mesma linha de A Queda), e construiu um bom espetáculo.

Comecei o ano lendo A Montanha Mágica, de Thomas Mann, que meu pai me deu em meu aniversário. Outra viagem! Comecei bem, não?! Resolvi, então, continuar nos clássicos e procurar os livros dos quais me cobrava leitura. Assim cheguei ao Proust e ao Camus.

Revi tópicos de um livro impressionante que li ano passado: Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver. Quem leu, arrepiou. Se você ainda não leu saia correndo para a livraria mais próxima. Estando lá, traga também De Verdade, do Sandor Márai. Este húngaro é sensacional.

Houve surpresas, a maior delas, Oscar Wilde e O Retrato de Dorian Gray. Este me apresentou a um personagem que me arrebatou: Lorde Henry. Irreverente, mordaz, inteligente e amoral, funciona como o (mau?) conselheiro do protagonista. Tem tiradas como esta: 'a tragédia da velhice não é a existência do velho, mas, a existência do jovem'. Assisti ao filme homônimo, de 1944, entretanto o protagonista não tem o carisma da personagem criada por Wilde. Lorde Henry, contudo, está lá, imperturbável.
Com isso, cheguei a um livro de correspondências de Oscar Wilde. Uma delas, que veio a se transformar em um texto à parte - De Profundis - é de tirar o fôlego. Trata-se de uma carta enviada da prisão a Lorde Douglas, o jovem com quem vinha mantendo um relacionamento afetivo, motivo pelo qual foi condenado à prisão na Inglaterra.

Li, ainda, com muito gosto, Cadernos de Infância, de Norah Lange, Cartas a Téo (correspondência de Van Gogh com o irmão), De Amor e De Trevas (autobiografia de Amos Óz), O Carrasco do Amor (contos que misturam ficção e realidade em casos atendidos pelo psiquiatra), do Irvin Yalom. Falando nele, há um audiolivro de Quando Nietzsche Chorou com ótima narração do José Wilker. Bom para se ter no carro.
Seda, de Alessandro Barico é um livro original, e poucas vezes se viu um texto com tamanha delicadeza. E elegância.
Aventurei-me por um estilo que não é exatamente o que me atrai - aventura, enigmas - com O Homem Que Não Amava as Mulheres, primeiro livro da trilogia de Stieg Larsson. É envolvente. Gostei de ler mas não me animei a continuar a serie. A gente corre muito mas chega com pouco. O livro acaba de ser adaptado para o cinema.

Reli dois grandes textos do Freud: O Mal Estar da Civilização (de utilidade pública) e Totem e Tabu. Quem já leu Freud sabe que, além do pensador expressivo, ele foi um grande escritor. É com total domínio das palavras que ele manifesta suas ideias.

Não consegui levar adiante O Jogo da Amarelinha, do Cortazar. Não é ruim mas me soou datado, e eu já passei da idade - pode ser que um dia volte à ela. Decepcionei-me com Caim, do Saramago. Que o Santo Pai me perdoe mas achei um livro irritantemente primário. Quando se quer paródia, soa ginasiano, quando se quer humorado, se torna caricato. Falta consistência às personagens. Sem isso, o texto se justifica unicamente como expressão da fé inabalável do escritor nele próprio. Um arauto de si mesmo. A forma da narrativa me remeteu Suassuna. Sem, contudo, aquela verve. E aquela simplicidade tão sofisticada. Por outro lado, li com prazer A Viagem do Elefante, do mesmo escritor. Tropecei no Caso dos Sete Negrinhos, da Agatha Cristie. Este livro saiu em um novo formato e o comprei lembrando que havia lido há muitos anos e gostado. Realmente o mesmo homem não passa pelo mesmo rio duas vezes. Desta vez precisei de muita boa vontade para chegar ao outro lado da margem.

Por conta do bom espetáculo de Clarice Niskier, comprei A Alma Imoral, do Nilton Bonder. Raro caso em que a adaptação saiu melhor que o original. Bonder não levou para o papel a cadência e fluidez com que Clarice tratou suas ideias.
Foi Apenas Um Sonho conta uma boa história, bem adaptada para o cinema. O Leitor, idem.

Ainda dei á volta ao mundo, curioso, seguindo as estripulias e Aventuras da Menina Má, do Vargas Llosa. Deixou-me de língua de fora, a chilenita. Encontrei uma nova edição de Um Aprendizado, da incomparável Clarice Lispector. Repus o meu que sumiu há tempos. Reli pela milésima vez, porque Clarice, completamente hard core, é uma a cada estação. Também reli um de meus textos preferidos: A Espingarda De Caça, do japonês Yasushi Inoue. Tenho histórias com este livro.

Cheguei à biografia de Danuza Leão: Quase Tudo. Recomendável apenas para quem está com sua autoestima em dia. Diante de tamanha exuberância você vai acabar acreditando que sua própria vida daria, no máximo, uma microssérie de televisão. E olhe lá...

3 comentários:

luis disse...

Tb me frustrei com Caim. Faltou inspiração, isso fica flagrante.
Vc leu O Compromisso, da Herta Muller? Muito bom (havia lido e gostado do Lowlands). Ela tem um texto fluido e consistente.
E o Kevin é realmente chapante.
Abçs.

Anônimo disse...

Danuza é fundamental. Seu primeiro livro "Na sala com Danuza" me botou nos eixos...rs. Ainda hj presenteio alguem com ele sempre que considero necessário...enorme Danuza!!!

terê disse...

Li a trilogia do Stieg Larsson e amei. Para mim, o melhor do ano (ao lado da biografia de CL, Clarice,)