Neste último dia do ano pensei em escrever alguma coisa que nos lembrasse do óbvio: uma grande parte do que usufruímos - ou não - em nossas vidas, está diretamente ligado a nossas atitudes. Diz-se em minha terra: 'não se conseguirá jamais colher laranja se plantarmos abacaxi'. Queria nos lembrar a todos que através deste simbolismo do calendário - uma meia-noite - podemos reciclar a vida, retomar planos produtivos, resgatar a solidariedade, cuidar da saúde, (des)alinhar quadros na parede, enfim, nos apossar - até onde possível - das rédeas de nossa própria vida. Assumir o roteiro.
Drumond já lembrou há anos: 'É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre'. Gonzaguinha já cantou que 'Somos nós que fazemos a vida como der, ou puder, ou quiser...'. Chico, dono do seu destino: 'Vida, ah, minha vida, olha o que é que eu fiz...'
Escreveria, enfim, sobre a urgente necessidade de nos tornarmos os artífices de nós mesmos.
Acontece que me lembrei, entre as palavras, de um bela passagem da Elisa Lucinda, fremente poeta, que traduz, à perfeição, minha mensagem para esta virada, que pode - mais uma vez - fazer girar o caleidoscópio.
LIBAÇÃO
"É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a proliferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes,
os processos troncos,
os processos flores
são suas mais finas dores.
As consequências cachos,
as consequências leite
as consequências folhas,
as consequências frutos
são suas cores mas belas.
É da substância do átomo
ser partível, produtivo, ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início
patrício da riqueza, solstício da realeza.
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la
não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos,
nossos fatos apinhados de pequenezas
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro
Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade 'minha' desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amisquinha
A vida não tem ensaios
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão."
Saúde!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
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5 comentários:
San, q bom q vc lembrou da Elisa. É uma grande artista menos reconhecida do q deveria. Escreve com os pulsos e é uma graça de pessoa.
Querido, amei sua ideia de 'abrir seu diário...'. Tá gostosinho isso aqui.
Um brinde 'à virgindande dos dias q virão'!
Belo Ano NOVO!
Libação: celebração, bebericação. Lindo poema. Atentar à beleza é o que nos resta, é alimento.
BRAVOS!
Elisa Lucinda vai na veia sem fazer drama.
É uma artista de primeira linha.
"A vida não tem ensaio
mas tem nova chance"
E.L.
(merece um acompanhamento à altura)
" Quem eu pudera ter sido
Que é dele?Entre ódios pequenos
De mim,'stou de mim partido
Se ao menos chovesse menos"
F.P.
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