sábado, 26 de dezembro de 2009

SABEDORIA

A carta que você vai ler a seguir foi escrita em 1854 pelo chefe indígena SEATTLE ao Presidente dos EUA, que na ocasião solicitava a compra de suas terras. Esta carta se tornou conhecida internacionalmente. Aqui em Belém, o 'Portão da Amazônia', onde a influência indígena ainda é patente e onde se está mais próximo de tudo o que sabemos que está acontecendo com a selva, partes deste texto me vêm diariamente à cabeça quando saio para caminhar pela manhã. Pesquisei na Internet e fiz uma edição porque o texto é longo. Se houver interesse não será difícil conhecê-la na íntegra.

'Como é que se pode vender o céu, o calor da terra?! Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho das águas, como é possível comprá-los?
Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos na campina, o calor do corpo do cavalo, e o homem, todos pertencemos a mesma família.

Por isso, quando o Grande Chefe, em Whashington, manda dizer que deseja comprar nossa terra, está nos pedindo demasiado. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos, portanto nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós, e, se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se disso e o devem ensinar a suas crianças, fazendo-as perceber que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais. Se lhes vendermos nossas terras vocês devem ensinar aos seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E que, portanto, o devem tratar com a reverência e zelo com que se tratam os irmãos.

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa.

Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. O ruído parece somente insultar os ouvidos.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, insensível ao fétido odor.

Se vendermos nossas terras, o homem branco deve tratar nossos animais como seus irmãos. Vi milhares de búfalos apodrecendo na planície, abandonados por um homem que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais desaparecessem, o homem padeceria de uma grande solidão espiritual. Pois o que ocorre com os animais em breve ocorrerá ao homem. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu a trama da vida, ele é apenas um fio. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos.

Onde está o arvoredo? Desapareceu. O translúcido riacho? Desaparaceu. Onde a Grande Águia? Desapareceu.
TERMINA A VIDA E COMEÇA A SOBREVIVÊNCIA'.

4 comentários:

Anônimo disse...

Queria escrever alguma coisa.......ok, escrevo, faço, depois volto aqui e comunico.

lucca disse...

Belo texto. Li a respeito do que está acontecendo no extremo norte do Brasil e fiquei tonto. Os 'gringos' tem cobrado pedagio até dos brasileiros.
Ate mesmo aqui na Italia -um país nada especialmente correto - se sabe mais da apropriação da amazônia do que no proprio Brasil.

terê disse...

Nossa, arrepiante. Não conhecia. É caso de divulgar 'pelaí'.

Lauro Cintra disse...

'O homem não teceu a trama da vida, ele é apenas um fio' - será tão dif´cil compreender e aceitar esta assertiva?